Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010

Ah filho de Maputo!



Ah filho de Maputo!
que ranges balas aos teus,
matas crianças aquém…
…aquém de fome
se matam também.

Ah filho de um Cabrão!
lambes a morte
do teu filho sem nome
onde a miséria
se consome
a um palmo do chão.

Ah filho de Maputo!
que puta alguma te pariu,
soubesses tu o nome
de quem te alimenta,
esquecerias o teu.

Domingo, 15 de Agosto de 2010

As palmilhas do senhor professor

Era uma vez, não!

Não era uma vez, já era para aí a terceira ou a quarta vez que os sucessivos desaparecimentos se repetiam.

José das Adornas era professor de aeróbica num albergue de cinco estrelas carentes, perto do Formigueiro, uma aldeia pitoresca de moças ainda puramente virgens.

Gostava de mostrar os seus pequenos dotes, que a barriga choruda toldava.

O placebo provocava efeitos colaterais no bailinho que a junta de freguesia organizava, todas as quintas - feiras, para entreter o povinho da aldeia. Já o tratavam por professor Pablo Vai Dez, o marmanjo ensinava qualquer uma a dançar o vira, e não é que elas viravam mesmo, algumas até viravam a carga ao mar. Mas quando a modinha virava para foxtrot, o boy sentia-se o Geme Bundas das redondezas.

Ludovina meia-irmã de Josefina, alunas do dito, entravam constantemente em conflito, ambas queriam, deitar-lhe a mão.

Josefina a mais velha costurava para fora, adorava o corte e cose na casaca, passava a vida a pintar a macaca, conflituosa e convencida, fingia-se de Madalena mas nunca arrependida, já Ludovina, a mais nova cuidava das vacas lá do pasto e dos queijinhos Zeca. Como sofria ao ver os pequenos triângulos com o nome do seu amado professor, e de vez aquando lá metia um ao bucho.

Chegado sábado a felicidade das rabelas pomposas, estava no auge, era dia de aulas, Ludovina andava sempre prevenida com os seus evax’s, não fosse a tia chegar sem aviso prévio e estragar-lhe a dança da semana com o seu Adornas. Como Josefina era desleixada, qualquer trapinho lhe servia, bem pespontado nada se via.

As puritanas estavam todas em collants, bem aprumadinhas com as suas respectivas sapatilhas a reboque, quando subitamente o professor ripostou:

- Meninas façam exercícios ao menisco que eu tenho que fazer um telefonema urgente.

Soltou-se o coro das duas eleitas:

- Sim Senhor Professor.

O petulante Adornas nunca demonstrou as suas fraquezas, não podia, ele era o senhor doutor dos pezinhos de lã. Toda a aldeia o tinha como um cortês, de bom dote e pote também.

O que diriam os aldeões e as puras raças ao descobrirem que o Bundas tinha a sola das sapatilhas furadas? Isso jamais poderia acontecer, perderia uma das donzelas finadas, perderia o dote que João da Rambóia lhe prometera se cassasse com sua filha Josefina. Embora este cassasse com qualquer uma desde que o dote ou o iate fosse bem recheado.

Tinha que tomar uma atitude urgente, as dores nos calos aumentavam como o livro do merceeiro, até que se lembrou…ao ver o saco de pensos pousado nos vestuários, enfiou dois em cada sapatilha e tratou de se prevenir com mais quatro, para quando aqueles se gastassem.

Resolvido o problema, voltou com um sorriso de alívio, como se tivesse mamado no peito da cabritinha do Quim Barreiros, música que tocava no momento da sua chegada.

- Meninas!

Vamos lá, começar, um, dois para a esquerda, dois, um para a direita, levanta, estica e estreita.

- Professor? Interrompe a corte e cose.

- Sim, menina diga lá?

- Acha os meus ténis confortáveis?

- Sim, sim e como são confortáveis! Divagou o Adornas aliviado dos joanetes.

- Como!!!???

- Sim menina, esses ténis são muito confortáveis e apropriados para a dança.

Mas vamos lá e não me interrompa mais!

Terminada a aula e de volta aos vestuários, queijeiras, apercebe-se do roubo e como a sua meia-irmã andava com os finados da tia, desatou à mugi dela:

- Ladra, invejosa, reles, vais-mas pagar bem caro, sua badalhoca, sempre teve ciúmes de mim, por ser vaca honrada…

A costureira levanta-se, a manda-lhe com o paninho nas bentas com o pespontado meio avermelhado:

- Pega lá esta para não dizeres o que não sabes, agora já sabes o que é um red fixe.

Eu ciúme de ti? É comigo que ele vai casar! Tu não me suportas por isso, é comigo que sou bainha bem vincada.

José das Adornas ao ouvir tal confusão, antes que se lhe acabassem as palmilhas pôs-se a milhas… na aldeia do Formigueiro ainda se fala das irmãs zombeteiras, que espantaram o professor prodígio por causa duns pensos sem abas.

As pobres coitadas, ainda hoje descabelam-se, por causa das palmilhas do senhor professor.

Terça-feira, 3 de Agosto de 2010

O Dom Queixote e o Sancho Prancha

Dom Queixote perdera o juízo na rua do Sobradinho lá prós lados da Vila de Cima, queria ser reconhecido a todo o custo, nem que fosse à lei do estandarte.

Dizia-se senhor das palavras escritas, que Camões colheu, dos feitos do Gama e do Infante, do Bocage, o alucinado herdara o penteado.

Um dia jurou vingança, pediu ajuda ao seu fiel mano Sancho Prancha, um lavrador vindo da parvónia, que confundia nabos com nabiças.

Este aceitou de imediato o pedido do Viriato desde que lhe pagasse umas feriazitas na Ilha dos Gormitis, onde habitam uns monstrinhos com falta de sal na moleirinha.

Fizeram-se à estrada mas ninguém lhes deu boleia, a pobre da Mula já não andava, nem de frente nem de lado, sentia-se cansada, sofria de má circulação e de cólicas renais, tinha passado o dia anterior na feira de Anais. Servia de poiso para regalar uns postais, fotos e caricaturas, era Mula estimada, fidedigna e recatada, sócia número dois da cooperativa das Mulas de Cima.

Dom Queixote iria até ao fim ou não fosse cavaleiro pedante. Subitamente avistou um grupo de idosos acabados de chegar numa excursão da Póvoa de Lanhoso, mas o alucinado era tão ranhoso que disparou uns quantos livros de outros escritores menos lidos, aos quatro ventos da Penha.

- Prancha, Prancha ao ataque olha lá estão eles, os cobardes que me querem roubar a literatura. Como são fortes e barrigudos devem ser castelhanos, atira-lhes com o Neruda ou com o Salvador, que eles piram-se já daqui.

Prancha aparvalhado, respondeu:

- Meu amo repare bem, são um grupo de idosos que visitam a nossa Penha, que mal nos podem fazer?

- Não meu fiel trapaceiro!

Para além de burro és parvo como a pêra rocha, não vês o que os gajos trazem na mão, espadas de vários tamanhos, vamo-nos a eles.

No meio de tanta confusão o pobre alienado e o seu fiel saloio foram parar à cadeia de Santa Cruz do Bispo, Dom Queixote estava deslumbrado com tanta cortesia, lá encontrara amigos de infância. O Pessoa que era carteirista nas praias de Famalicão, Antero que falsificava documentos a pagantes, e o Pessanha mais conhecido por peçonha, porque parecia langonha colado à malvadez.

Prancha fazia contas à vidinha, era melhor dizer amem com o Queixote do que perder o dote, ou não fosse também esfoliado por um louco, que trazia uma maçaroca à cintura e dizia a toda a gente que era o punhal de Romeu, aquele, das omeletas.

Mas como poderia Dom Queixote desistir de tão vil literatura e enfrentar a sua amada e doce amargura, Maria do Alvoroço, que passava a vida a salgar patas de presunto e chispes prà que te quero.

Como iria ele encara-la, e comprovar que não foi ele que escreveu as “Tábuas da Lei”?

Que afinal foi um fulano que tinha a mania que era superior a ele, e que jamais o conseguiria destruir…

Maria do Alvoroço não iria compreender, como consegue um fulano escrever linhas tortas e ser melhor do que ele, e logo ele que sempre escreveu tão certinho e direitinho, era tão perfeito, até parecia faze-lo em cadernos de duas linhas.

Nem pensar tal injúria.

Não tinha outro remédio, Dom Queixote, se não voltar, e contar-lhe a verdade, pobrezito ao assumir que assim era perderia o comando.

Tinha que ser, e lá ganhou coragem o homenzito:

- Maria afinal o comando não é MEO é TEO!

- Eu bem que desconfiava Queixote, ora então quem manda aqui sou EO!

Vai lá salgar umas rimazinhas que eu cá me encarrego de apimentar esta gentalha das (litra) turras.

Vai, vai…

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

"Já agora mate-me" - Dedicado a Catarina Eufémia




Nas folhas secas do meu ventre


sinto o entardecer da aurora,


vestida de luto



Nas andorinhas que não chegam


conto as rugas


na cera derretida,


que ainda desliza no meu rosto


num pavio, quase ignorado



Ceifaram-me o trigo


num Maio, ainda maduro


a terra petrificou-se


de branco marmórea



Nas folhas secas do meu ventre


a fome ainda chama por ti,


a liberdade ficou esquecida


na sombra, da azinheira


que te viu morrer


Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Antologia: 7 Pecados AVISO/CONVITE



Amigo, Poeta,


Amante do pecado



Amanhã estamos lá!




É importante confirmação final de presença:



Motivo:



Amanhã jantaremos num restaurante da cidade de Barcelos perto do Local da feira do Livro.


Nesse sentido é importante a tua confirmação para reserva de mesas. O jantar terá início


no intervalo entre as 19H45 e 20H00.



Aproveita-se este email final para te lembrar que esperamos a maior e melhor divulgação


deste evento hoje e sempre, uma vez que vai ser lançada formalmente a 2ª Antologia


"7 Virtudes" integrada nesta Trilogia subordinada ao tema "A magia do 7"



Informa-se que nesta busca de parcerias a rede "Poesia e a rede lusopoemas" do Portal


BlogTok.com tudo tem feito para promover os vossos sites e Blogues através de inclusão


de links e submissão de feeds RSS. Temos reparado que poucos são aqueles que recebendo


um forte e expressivo apoio da nossa parte, jamais se dignificaram a retribuir tão simples gesto


para com os seus pares. É na troca de citações, vulgo links que reside o maior poder da net. Sem isso


estaríamos diante de algo completamente morto e estático. Nesse sentido e como exemplo nós somos


o maior parceiro do site luso-poemas.net, pois na verdade somos a plataforma que mais divulga


o mesmo e com ele os seus utilizadores:



Senão vejamos, só como exemplo:




Secção/Menu "No cais" no site


www.poesia.blogtok.com



Se não encontras link para ti informa que o colocaremos.




Site Parceiro do Luso-Poemas criado por JSL e TrabisDeMentia


www.lusopoemas.blogtok.com



Onde por exemplo é possível ler os ´últimos Posts sem dar "Hits"



http://lusopoemas.blogtok.com/menu/6/8828//



e até é possível ler as últimas do forum sem a tarefa ingrata andar à procura dos assuntos do dia.



e muito mas muito mais, conforme brevemente te daremos a conhecer.



Uma mão lava a outra e só não peca quem não tem mãos .. não deve ser o caso!



Do teu amigo num recado:




Pecado Capital


Quem nunca se pedrou
Que atire o primeiro pecado
Pois quem nunca pecou
Não sabe estar pedrado


São pedras, cristais; diamantes
Moedas e notas; são cheques
Batalhas; guerras gigantes
Na mesa; invejosos banquetes


Quem nunca pecou
Peca na luxúria total
Numa vaidade sem igual


Porque a maça trincou
E entre o bem e o mal
Eis o pecado capital!



Como vêem o mais importante não é só a tua presença física:



A equipa



PS.: Envia convite e publica no teu site/blog.

Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Sirvam-se...qualquer nome me serve



Não me alimento de pontapés
nem de murros no estômago.

Vou engolindo os nós
a sangue frio,
com a mesma sede
de quem mos aperta.

Sabem-me a bosta,
vomito-a para um frasco
como oferenda de um umbigo
que não me pertence,
o meu foi tapado à nascença
chuleado com fio do norte.

[a ostentação já não me limita]

Bebo as borras do café
e sugo-lhes a cafeína,
a sopa que me azedou
é a mesma que me aquece
nos dias mais frios.

Não me digo livre
porque criaram os cravos
nem me julgo mártir
quando me açoitam os espinhos.

Cuspam quando eu morrer
a mesma saliva
que vos lambe o ego,
com a mesma língua afiada
com que apertais os cordões
das botas, daqueles que vos pisam.

[antes de ser gente já fui merda
e à merda voltarei]



Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

O site literário da censura



Quando pensamos que vivemos num pais onde os cravos da revolução conquistaram a liberdade, enganam-se!


A mesquinhez e a prepotência são colocadas acima dos interesses da literatura, as barreiras pessoais são impostas a quem tiver formas de pensar e estar diferentes.


A censura barra a entrada e expulsa indevidamente quem tiver ideias e formas de ver diferentes da conveniência do dito site, as justificações calam-se, alegando que se infringem leis sem que as mesmas sejam devidamente explicadas.



A pergunta:



“Poderia explicar-me em que momento é que o meu comportamento foi desadequado anteriormente, porventura infringi alguma das regras do site?


Ao dizer que queria sair do site é um comportamento desadequado? Por me sentir lesada com o bloqueio da minha palavra-passe.



Desculpe a minha confidência, mas julgo haver alguma incompatibilidade entre o sucedido e a infracção de regras do vosso site.



Gostaria se assim fosse possível que me indicasse que regra infringi anteriormente.



Cumprimentos



Conceição Bernardino”



A resposta é sempre esclarecedora!



“Bom dia



A sua inscrição no site, de onde saiu a seu pedido, foi recusada por comportamento anterior reiteradamente desadequado. Como refere o regulamento,



"SITE DE PROPRIEDADE PRIVADA E COM DIREITO DE RESERVA DE ADMISSÃO"



Agradecemos que nos indique em que endereço recebeu o mail automático para ser retirado. Como usou vários, só manualmente agora se conseguem retirar. Este que está a usar já tinha sido retirado e não foi, aliás, através dele que recebeu o convite. Cumprimentos


A Administração”



Se fores persistente esquece, no momento em que o teu nome e o ID do teu computador caírem na lista vermelha “dos indesejados”, “dos que ousam em saber o porquê” és perseguido de qualquer forma. Se conseguires saltar os muros de novo com um perfil diferente és banido sem qualquer tipo de justificação que não seja esta.











Ocorreu um erro!


Visitante, você foi banido deste fórum!



Só porque te identificaram o ID, só porque te reconheceram na escrita.



Viva a liberdade de expressão!



http://www.escritartes.com/



Viva o “Escritartes” o site do bem-querer!



Conceição Bernardino


2-6-2010


Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Amara est veritas.



A verdade é amarga



O cheiro a mofo, das paredes negras, cobria-lhe o rosto de azedume em formas oscilantes, o candeeiro a petróleo bebia o pavio em goles oxigenados, pelas fendas de madeira apodrecida. O homem arcaico mascava histórias do mar, num bloco de apontamento em laçadas de carvão, içadas em redes de pesca remendadas pelo tempo.


O velho solitário era filho de pai incógnito e, Maria Madalena que o esconjurara à nascença; atravessou o deserto dos renegados…


…Nem o santíssimo sacramento o comungou, nem Madalena se arrependeu.

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

o último gole...


Nessa manhã ofereci-te o pequeno-almoço,
mas o meu corpo…

embrulhei-o na última página do jornal,
do último mês
da última foda
da última hora,
os teus quinze minutos
estavam prestes a ser engolidos,
no último gole da minha saliva.

Perpetuei-te à morte com a mesma mentira,
na boca da chávena de café,
cuspida
no dia anterior


Inspirado no poema “Só odeio-te muitas vez”, de Horroriscausa

http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=128168

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

No sense



É na esquina do tempo que calo o desequilíbrio da minha voz apressada; nas veredas da minha incerteza, rejeito a razão por não saber o que me espera. Confesso-me às pedras que me atiram, guardo-as num vocabulário impróprio, onde desfaço as diferenças em esferovite.
Quantas vezes me ensinaram que era com o garfo que se comia, não com a mão. Bem que tentei, mudei de garfo vezes sem conta e até de mão, com medo das facadas que tal disfunção pudesse provocar.
Calai-me por tudo e por nada, menos pela simples satisfação de me calar…

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Simplesmente Maria



No brilho de metal oxidado,
do cabelo
o suor lambia-lhe
cansaços,
o relógio de ponto
avança,
sem hora marcada
a máquina não
pára
na rua cinzenta da cidade,
ganha-pão
pão não tem,
o ponto avança
avança o ponto
sem passado
nem futuro,
eles papam tudo
tudo papam
mudam-se os tempos
e não muda nada

…mataram-lhe um sonho
a sangue frio…

Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

«Puramente quimérica» - Parte I


O teu rosto fedia a “Besta” incompleta puramente quimérica, de olhos rasgados em genitais desejos promíscuos. Queimavas o meu útero de menina nas entranhas da seriedade do teu porte burguês como se bebesses num trago só, toda a minha chaneza.
O meu sangue salivava a tua gargalhada, exibindo o dente de ouro que roubaras de outra virgindade …como pudeste pensar que uma menina como eu te daria tanto prazer se apenas me obrigaste a ser mulher …suicidei a cólera que me possuía e possui-me da polidez.

Não me deixei cair na mesquinhez de lamentações fúteis, os meus olhos negros escondiam uma menina órfã que rapidamente moldava uns belos seios de mulher, desejei-os antes de os entregar à ira da mediocridade dos ladinos. Quis ser a primeira a tocar-lhes; sem pudor despi-me em frente ao espelho, (única peça que adornava o meu quarto), suavemente deslizei os dedos sobre os meus mamilos adornados de seda, endurecidos de deleite pediam-me que me penetrasse, e, num vaivém de uma dança mística amei o meu corpo pela primeira vez, brindei-me com um cocktail de sabores delirantes.

Finalmente tinha-me encontrado com o meu corpo, ergui-o da vegetação, da pena incondicional a que o entregara com nojo de ser mulher. O mundo da “Besta” incompleta que me paralisara tinha fenecido, no momento em que pari a própria vontade de me parir; jurei não rezar mais hóstias bolorentas nem jejuar a fome da impunidade de um cão que se ajoelhava na missa à caça de mais um petiz para o seu cardápio. Voltei pela última vez ao adro da igreja, precisava de olhar-lhe, (no olho que ainda lhe restava), nesse preciso instante tive a certeza que o seu sadismo não coligia rostos.

A igreja continuava intocável, ajoelhei-me aos pés da minha meninice, enquanto um pai-nosso saía a ferros da boca do inferno dos mais devotos, todos comiam o corpo de Cristo, e, bebiam sagazmente os meninos do coro em glória a Deus. O padre bajulava os feitos da caridade do seu rebanho negro, abençoava-os com a carne mais tenra, a mais pura, com que ostentava a sua divindade em benefício do próximo.
A missa terminara; os in(fiéis) cumprimentavam-se, assim mandava a palavra do senhor.

Mathilde Gonzalez - pseudónimo literário de Conceição Bernardino

Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

Papa aqui papa acolá…



Nem a galinha põe o ovo
nem o menino papa-o todo,
agora sem papa
nem ovo,
o menino é papado
por qualquer suíno
no curral da sacristia,
água benta e caridade
em sagrada homilia
o suíno papa o menino,
os papões papam também
encobrem a pedofilia
benzem o suíno e,
dizem amem

Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

Pedras da Calçada




Ouço os murmúrios das pedras da calçada
nas palmas das minhas mãos calejadas,
vou esculpindo uma metade de mim em arte
mas a outra metade fica sem abrigo,
na escultura de um calceteiro definhado.

Ajoelho-me nas formas lineares...
...granito, mármore, granodiorito,
cinzelo-as, como se fosse a minha opulência.

Deixo-me levar pela alvorada boreal,
parte de mim morrerá sobre as pedras
de um simples calceteiro rústico,
mas a outra se imortalizará em musas
lavradas nas calçadas...