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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Retalhos V



Fui crescendo na morte, que corroía as linhas paralelas das minhas mãos semiabertas. Aprendi rapidamente a renascer nos braços abertos de um espantalho, usurpando o medo que consumia os horizontes da minha solidão. Quis correr mas não tinha pernas, qualquer mortalha ostentava a minha condição de pássaro ferido, à procura de uma migração prematura onde os poetas só mudam de pena.
Nem as serpentes de aço em que me enclausuraste calaram a minha austeridade de mulher, [deformada] por um vilão que se alimentava de pombos mal definidos.


Conceição Bernardino

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estigma



 
Os nossos estigmas tornam-nos diferentes...deixamos de ser o que queremos...as raízes mantêm-se profundas, ninguém as consegue arrancar...o que queremos esquecer, já nem a loucura da nossa ventura a consegue demolir...essa simples palavra amizade é tão complexa como
a grandeza do mar...todos querem sentir, poucos querem ouvir...todos querem receber, mas tão poucos sabem dar...os amigos ficam, quantos?
Os que têm necessidade de falar ou os que sabem escutar?
Saciam a fome da boca que não alimentam...enquanto a mácula não passa...as lágrimas confundem-se com piedade desta veracidade maldita...
As folhas caem e a nudez abraça novamente o frio...fica a recordação sentida...esta é a fragrância da vida...

 
Conceição Bernardino

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Simplesmente Maria, Mulher


Depois de atravessar ruas desertas, olhou, sorriu e disse-me:
- Choro de alegria meu amor.
Sufoquei por uns segundos o pestanejar da luz das coisas simples, naquele momento revivi todos os dias da minha vida como se carregasse sacos cheios de aventuras. Senti-lhe o cheiro a leite, enquanto amamentava o meu corpo franzido, os seios rígidos que me protegiam eram os mesmos que hoje me abraçavam, frágeis, desprotegidos.
Olhei-a na perfeição dos meus olhos, tão hermeticamente fechados como botões de rosas acabados de nascer. Desfolhei os espinhos cravados nas ruas desertas onde demos as mãos tantas vezes, chorei finalmente, e disse-lhe:
- Caminha minha mãe, abraça-me preciso tanto de ti.

...Maria, Mulher entre as Mulheres.

Conceição Bernardino


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Simplesmente Mulher



Já não consigo compassar o tempo que perco nas pálpebras adormecidas do teu rosto, ainda ontem me sorrias, com um beijo maroto, que roubavas inocentemente dos meus lábios. Se ao menos eu pudesse devolver-te esses momentos de menina, jamais teria crescido sem me saber mulher…
…mulher, enganei-me tantas vezes, mulher, ao crer numa liberdade camuflada de calças, onde o imperialismo hasteou a bandeira da igualdade entre as pernas e a inferioridade das saias critica as próprias coxas.
Quem me mandou lançar sobre as paredes inocentes sombras gémeas que nunca se tornariam numa só.
Se algum dia te perguntarem o meu nome, diz-lhes:
- Chama-se Mulher.

Conceição Bernardino

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

onde a luz e as sombras se encontram


Tropecei nos silêncios de pedras calcinadas defronte a uma esquina de vidro, ao longe a coluna dorsal do mar dobrava-se em delicadas vértebras, lambendo as sequelas enraizadas de salitre na “Vesperata” onde a luz e as sombras se encontram.

Quis sentir-lhes o sabor…saboreei o primeiro trago na inocência a ilusão, o segundo o despotismo enfadava a razão, o terceiro trago servia para sustentar qualquer condição.

A vida é tão estúpida que estupidez alguma a reconhece quando no lamaçal a morte se finge acordada.

Conceição Bernardino

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Retalhos IV



Calei-me nos retalhos enlaçados em febris pontapés, recebidos pelo instinto animal que se apossava do meu corpo. Quantas vezes me viram no covil dos bichos-do-mato, não me reconheci, não me reconheceram. O sol passava ao lado de um vulto brutalmente desconhecido, as mãos agarravam-se ao desespero num grito tolhidamente mudo, na boca os hematomas mastigavam os olhos, totalmente visionários da imagem que os tragava.