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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Plutocracia





Devolvo-me à superfície das pedras
Como um nómada acabado de nascer
Entre as muralhas ilegítimas
Desta mediocridade ornamental, apressada
Pelos barões, pelos bastões
Desta lacónica pátria
Pendurada na palma da mão
Do pedantismo dos pombos
O Führer acendeu a tocha
Nas chagas de um Cristo todo-poderoso


Conceição Bernardino

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

As pupilas dilatadas da saudade


No verde dos olhos esconde-se uma flor de aço
Na ilusão comestível do entardecer os passos
Apressam o aspecto do meu corpo, corro
Como limalhas em horas de ponta à procura
Da última chuva que se acomoda na lama
No silêncio os violinos molham-me o rosto

Os dedos dormentes abrigam-se num fólio
De sílex sobre as pupilas dilatadas da saudade
Ama-me antes que a chuva se dissolva
Num adeus prematuro nos teus lábios.

Conceição Bernardino

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fissuras do tempo




As paredes estão vazias
repletas de fissuras
de imagens, sussurros
de pregos trôpegos
curvados pelas sombras.

Já não escuto a voz
nem sinto o bocejar da noite
apenas as linhas,
que escrevo sobre
o papel da minha alma.

As letras miudinhas
confundem-se no branco
dos lençóis remendados
onde o silêncio se aconchega,
do ruído que não chega
do ranger das portas
que já não se abrem

adormeço sem saber se volto…
   …no rodopio das cortinas
   da minha liberdade.
   
 
 Conceição Bernardino

sábado, 17 de dezembro de 2011

Etiópia, a última ceia




Aperta-me as mãos, estão geladas
ainda que não as sintas, aperta-mas,
são elas que carregam o pão, da última ceia
deste ventre inchado, onde as moscas acasalam
na aresta da lágrima que desenha os meus olhos.

A vida escoa-se, a viagem dilata-se
entre a correria apressada dos corpos
onde os oceanos são feitos de terra amarelecida
e os glaciares infaustos, aperta-me as mãos
antes que o sol se ponha e nos vista de medo.

Mãe negra,
é breve o teu lamento…ouço-as, gritam,
num círculo fechado, na cartilagem das sílabas
escritas, vendadas pelo sangue frio
que carregas nas mãos, a fome.


Conceição Bernardino
 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pássaro de papel




Sonhei a primavera
Nos olhos dum tordo renegrido
Sem pena voltei a sonha-lo
Sobre o cume branco
Como os amantes
Que se amam num só corpo
Sem ver onde a primavera começa
E o inverno acaba

Imortalizei o sonho
Quando o gelo ancorou
Antes do frio
Nos teus olhos negros
Da cor da solidão

Conceição Bernardino

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Sancho é real D. Quixote



Não tentes calar a minha voz

Com o fato metálico de chapa ridícula

Onde não há lanças nem archotes nem árvores suspensas.


- O Sancho é real D. Quixote!


Enche os bolsos de lendas antigas

Mastiga os pássaros caídos na valeta

E acena às crianças pobres um futuro miserável


Não tentes calar a minha voz

Com o relinchar de um cavalo de pau

Onde as ferraduras são feitas de trevos e vertigens


- O Sancho é real D. Quixote!


As cidades adormecem por baixo de outras cidades

Onde as lixeiras e o lodo do rio trás à tona o condenado de Victor Hugo

O cio cresce na boca dos saqueadores e a saliva afia a guilhotina
  

- Já crescem cabeças nos campos de trigo D. Quixote

Conceição Bernardino

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

De que cor é a morte?



 
Vou refinando a morte
Sem suster a respiração
Qualquer uma me serve
Anui-me como uma luva

Tenho as medidas certas
E os olhos revirados,
Divididos ao meio, urdidos
Por linhas descontínuas

[De que cor é a morte?]

Pintá-la-ei de frutos
Silvestres, quem sabe
De álcool com amoras
À mistura, ou de rosas
Murchas sem pétalas

Mas tudo bem,
Deixem-se de merdas
Eu também já estive
Morta antes de nascer


Conceição Bernardino

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Dobro-me sobre as migalhas



Dobro-me sobre as migalhas calcinadas
num asfalto qualquer infecundo de clemência.
Espargem olhares incómodos,
 sobre a minha abóbada arruaceira.

Perdi a minha morada num portal fausto
desobedecendo à nobreza…
 … da minha instável pobreza.

Pesa-me nos bolsos sujos, a desdita
 honestidade enfatuada  da burocracia.

Alegra-me o sorrir da noite
  e as vozes que não ouço,
 as manhãs frias, vazias,
 que calo nos bancos de jardim.

Dobro-me sobre as migalhas arraigadas…
na inquietude que ainda esperam de mim.