quinta-feira, 10 de novembro de 2011

De que cor é a morte?



 
Vou refinando a morte
Sem suster a respiração
Qualquer uma me serve
Anui-me como uma luva

Tenho as medidas certas
E os olhos revirados,
Divididos ao meio, urdidos
Por linhas descontínuas

[De que cor é a morte?]

Pintá-la-ei de frutos
Silvestres, quem sabe
De álcool com amoras
À mistura, ou de rosas
Murchas sem pétalas

Mas tudo bem,
Deixem-se de merdas
Eu também já estive
Morta antes de nascer


Conceição Bernardino

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Este país não é para finados

             


Já andamos todos finados se nos vão finar mais o que será do povinho, ora bem frito ora cuzidinho, com a Merkel a dar-nos um toucinho reproduz-se o fiado e paga-se dobrado. Coelho nem vê-lo está pela hora da morte quando acena a pata sai qualquer coisa à caçador, ou fode o pobre ou manda merda pelo ventilador e zás que se faz tarde é preciso bajular os troikanos, medida acima medida abaixo e mamam todos do mesmo tacho.
Corta aqui, corta ali, corta…rebobina, acção…isto de andar na phoda já parece coisa da moda, tangas e ceroulas e volta-se afinar mais uns trocadilhos aos finados e que se phoda quem quiser…obedecer, alinhar e toca andar de cu para o ar. Venham de lá mais dois submarinos, um porta-aviões, uma OTA e um TGV que o povo arrota e diga-se de passagem que a loja de conveniências tem todos os modelos e cá os camelos largam o cordão à bossa. A Banca ganha a Merkel agradece o portas dá o aval o deve cresce e haver vamos as carteiras da corja bruta que nos pedem sacrifícios
mas não andam de trotineta, são BMW’S senhor e tem cavalos…os burros andam todos a reboque, zurram, zurram, são afinadinhos.
“- Abram o camarote, estica bem a medida Austero, preciso de mais uns três milhões para tapar um buraquito que apareceu ao meu compadre, o das escutas”.
Viva a equidade fiscal!      


Conceição Bernardino


PS: este texto é uma critica ao governo em tom sarcástico, peço desculpa aos mais sensíveis 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Este país não é para deficientes



Ao longo da historia da humanidade os cidadãos com deficiência foram os mais descriminados e marginalizados, é nesta vertente que me debato perante um país que continua a ignorar o que simboliza de coitadinhos.

Comecemos pelas instituições públicas: é tão lindo quando me deparo com emblemas e plaquinhas que dão prioridade aos deficientes mas no entanto na fila de espera continuam cidadãos de muletas, invisuais e as cadeiras de rodas que qualquer dia também começam a pagar imposto de circulação. Alguns destes portadores de deficiência ainda reconhece os direitos que lhe assiste mas outros preferem ocultar e silenciar pela rebeldia estereotipada dos olhares da maledicência.

Circular nas vias públicas é uma utopia, uma autêntica aventura para os mais ousados, são confrontados com uma série de desportos radicais; buraco sim buraco não, (bem são só mais uns buraquitos próximos do buraco orçamental ou do ozono quase nem se aludem), mas o civismo continua guardado dentro da mentalidade reles do coitadinho que ocupa a via para peões com os seu carro bem polido fica impune, ora atrás de um sempre fica melhor outro e mais outros…então se for dia de romaria ou de futebol venham de lá mais cinco que as autarquias agradecem e todos beneficiam, menos os obtusos dos deficientes que não entenderam que eram personas não gratas.

Agora passemos às grandes superfícies comerciais; Braille não é baile, é mesmo Braille (sistema de leitura através do tacto para cidadãos invisuais), mas quem manda estes seres para um hipermercado sozinhos, só pode ser maluco ou alguém que está a ser filmado para os apanhados ou então uma nova série do “Mister Bean”. Já repararam no amontoado de latas que espalham nas promoções (leve 5 e pague 6) ou na camada de prateleiras carregadas de pacotes de açúcar quando o preço pertence à massa de cotovelos que está ao lado, o melhor é porem os invisuais a jogarem bowling sempre é mais seguro, o risco de sofrerem um acidente é menor e não têm despesas por danos pessoais. Pergunte ao gerente ou nalguma instituição pública se sabe linguagem gestual, quer que responda?

Dessa língua não temos mas aproveite que a língua de boi está em promoção. Neste país existe cerca de um milhão de deficientes…

Viva a declaração universal dos direitos do homem!



Conceição Bernardino

PS: este texto é uma critica ao governo em tom sarcástico, peço desculpa aos mais sensíveis  




domingo, 30 de outubro de 2011

Este país não é para mim



O mundo virtual é uma maravilha protegeu-me da forca ou dos pregos mas dos insultos não me livrei. Para o que me havia de dar, postei a minha coluna (salve seja) o texto “este país não é para velhos” no facebocas naqueles grupos de literatura e quase fui trinchada por alguns membros facebokianos. Tive que dar corda às sapatilhas, a minha sorte é que agora existem sapatilhas de rodinhas o que facilitou a fuga do linchamento virtual. Não é que o people entendeu aquilo como um insulto aos nossos idosos, vi-me num filme de kung-foge, até me chamaram gueixa em português se fosse em chinês ainda vá que não vá, era mais gueixa menos gueixa, outros queriam atirar-me ao mar o que me vale é gostar mais do campo e ainda acusaram-me de ser filha da polícia. Esqueci-me de perguntar se era militar ou da judite, sabe-se lá antigamente trocavam muito os embrulhos nas maternidades, quem sabe não sou filha do Carmona, que não bato lá muito bem da mona eu já sei mas um tachinho
daqueles que dura, dura fazia cá um jeitaço no meu trem de cozinha.        
Estou desnorteada, vou consultar a minha vidente, neste caso tridente porque a senhora só tem três dentes, estou deveras preocupada com o meu futuro depois de levar com tanto vudu, não vá o diabo tece-las e sair-me um tear numa raspadinha.
Pronto já sei, acabei de dar uma boa nova ao governo, lá vem mais bronca para o meu lado, amanhã os idosos com pensões inferiores ao salário mínimo vão ser obrigados a usar sapatilhas de rodinhas e cortam as comparticipações no passe social.
Viva a liberdade de expressão!
  
          
Conceição Bernardino

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Este país não é para velhos



Os velhos com reformas miseráveis só sabem refilar ora do custo de vida ora de doenças eu sei lá mais o quê.
Para que querem estes improdutivos mais rendimentos?
Não chega os benefícios que lhes assistem, isenção de taxas moderadoras, medicamentos mais baratos, passe social por metade para andarem por ai a ver montras, raio de velhos que nunca se satisfazem com nada. Ao menos podiam ser mais gratos, talvez criássemos um “Magalhães” à altura deles para se entreterem enquanto esperam horas a fio nas urgências dos hospitais, ou quem sabe ipod’s para curtirem uma musicazinha ou uns games nos centros de saúde, no banco de jardim onde quisessem mas parem de se queixarem já não há quem os aguente são piores que chatos agarrados ao…c. (santíssimo sacramento) que ouçam a missinha das sete, deixem-nos em paz.
Os filhos não os aguentam e viram-se para nós como se tivéssemos alguma responsabilidade de zelar pelos seus direitos, morrem abandonados em casa, a culpa é nossa porque não aplicamos punições à família, são vítimas de violência domestica ou de instituições públicas nós temos que responder por quem os agride, só falta culparem-nos por estarem desnutridos ou por não tomarem os fármacos para os ais.
Têm prioridade em todos os locais públicos, B.I vitalício, duzentos e cinquenta e três euros de pensão. Não chega? Em vez de darem pão às pombas que o comam.
Será que não entendem que não andam cá a fazer nada que só atrapalham, só empatam o circuito financeiro o aumento da divida pública. É por causa desta classe que o défice cresce e o PIB não evolui. Engane-se quem pensa que vamos facilitar a vida a estes empecilhos e poupa-los das medidas de austeridade, este país não é para velhos…a cair de pobres. Viva a igualdade!

Conceição Bernardino

PS: este texto é uma critica ao governo em tom sarcástico, peço desculpa aos mais sensíveis 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estigma



 
Os nossos estigmas tornam-nos diferentes...deixamos de ser o que queremos...as raízes mantêm-se profundas, ninguém as consegue arrancar...o que queremos esquecer, já nem a loucura da nossa ventura a consegue demolir...essa simples palavra amizade é tão complexa como
a grandeza do mar...todos querem sentir, poucos querem ouvir...todos querem receber, mas tão poucos sabem dar...os amigos ficam, quantos?
Os que têm necessidade de falar ou os que sabem escutar?
Saciam a fome da boca que não alimentam...enquanto a mácula não passa...as lágrimas confundem-se com piedade desta veracidade maldita...
As folhas caem e a nudez abraça novamente o frio...fica a recordação sentida...esta é a fragrância da vida...

 
Conceição Bernardino

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Dobro-me sobre as migalhas



Dobro-me sobre as migalhas calcinadas
num asfalto qualquer infecundo de clemência.
Espargem olhares incómodos,
 sobre a minha abóbada arruaceira.

Perdi a minha morada num portal fausto
desobedecendo à nobreza…
 … da minha instável pobreza.

Pesa-me nos bolsos sujos, a desdita
 honestidade enfatuada  da burocracia.

Alegra-me o sorrir da noite
  e as vozes que não ouço,
 as manhãs frias, vazias,
 que calo nos bancos de jardim.

Dobro-me sobre as migalhas arraigadas…
na inquietude que ainda esperam de mim.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Simplesmente Maria, Mulher


Depois de atravessar ruas desertas, olhou, sorriu e disse-me:
- Choro de alegria meu amor.
Sufoquei por uns segundos o pestanejar da luz das coisas simples, naquele momento revivi todos os dias da minha vida como se carregasse sacos cheios de aventuras. Senti-lhe o cheiro a leite, enquanto amamentava o meu corpo franzido, os seios rígidos que me protegiam eram os mesmos que hoje me abraçavam, frágeis, desprotegidos.
Olhei-a na perfeição dos meus olhos, tão hermeticamente fechados como botões de rosas acabados de nascer. Desfolhei os espinhos cravados nas ruas desertas onde demos as mãos tantas vezes, chorei finalmente, e disse-lhe:
- Caminha minha mãe, abraça-me preciso tanto de ti.

...Maria, Mulher entre as Mulheres.

Conceição Bernardino


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Simplesmente Mulher



Já não consigo compassar o tempo que perco nas pálpebras adormecidas do teu rosto, ainda ontem me sorrias, com um beijo maroto, que roubavas inocentemente dos meus lábios. Se ao menos eu pudesse devolver-te esses momentos de menina, jamais teria crescido sem me saber mulher…
…mulher, enganei-me tantas vezes, mulher, ao crer numa liberdade camuflada de calças, onde o imperialismo hasteou a bandeira da igualdade entre as pernas e a inferioridade das saias critica as próprias coxas.
Quem me mandou lançar sobre as paredes inocentes sombras gémeas que nunca se tornariam numa só.
Se algum dia te perguntarem o meu nome, diz-lhes:
- Chama-se Mulher.

Conceição Bernardino

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Simplesmente Maria



No brilho de metal oxidado,
do cabelo
o suor lambia-lhe
cansaços,
o relógio de ponto
avança,
sem hora marcada
a máquina não
pára
na rua cinzenta da cidade,
ganha-pão
pão não tem,
o ponto avança
avança o ponto
sem passado
nem futuro,
eles papam tudo
tudo papam
mudam-se os tempos
e não muda nada

…mataram-lhe um sonho
  a sangue frio…

Conceição Bernardino

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Gritos mudos II



Não me deixei cair na mesquinhez de lamentações fúteis, os meus olhos negros escondiam uma menina órfã que rapidamente moldava uns belos seios de mulher, desejei-os antes de os entregar à ira da mediocridade dos ladinos. Quis ser a primeira a tocar-lhes; sem pudor despi-me em frente ao espelho, (única peça que adornava o meu quarto), suavemente deslizei os dedos sobre os mamilos adornados de seda, endurecidos de deleite pediam-me que me penetrasse, e, num vaivém de uma dança mística amei o meu corpo pela primeira vez, brindei-me com um cocktail de sabores delirantes.
Finalmente tinha-me encontrado com o meu corpo, ergui-o da vegetação, da pena incondicional a que o entregara com nojo de ser mulher. O mundo da “Besta” incompleta que me paralisara tinha fenecido, no momento em que pari a própria vontade de me parir; jurei não rezar mais hóstias bolorentas nem jejuar a fome da impunidade de um cão que se ajoelhava na missa à caça de mais um petiz para o seu cardápio. Voltei pela última vez ao adro da igreja, precisava de olhar-lhe, (no olho que ainda lhe restava), nesse preciso instante tive a certeza que o seu sadismo não coligia rostos, havia de mata-lo da mesma forma que ele matou a criança no túmulo do meu corpo.

Conceição Bernardino

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

já não sinto medo, amor…






Já não me deito nas acácias do teu corpo

nem me visto, nas giestas dos teus braços

onde o bosque se calou na solidão, amor.


Abraça-me, sinto frio…


As violetas que colho nos teus olhos

calam-me a dor minguante,

em pequenos cristais de sal, melodiosos


Já não sinto medo,


Corto com a lâmina de vidro, os glaciares

de velas,

que velam por mim,

num jardim de gerberas perfumadas,

aromas de nós, ainda desconhecidos.


Aceita-me, como uma açucena,

despe-me pétala a pétala

até que o caule encontre,

a raiz de um poema só nosso.


Conceição Bernardino

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

onde a luz e as sombras se encontram


Tropecei nos silêncios de pedras calcinadas defronte a uma esquina de vidro, ao longe a coluna dorsal do mar dobrava-se em delicadas vértebras, lambendo as sequelas enraizadas de salitre na “Vesperata” onde a luz e as sombras se encontram.

Quis sentir-lhes o sabor…saboreei o primeiro trago na inocência a ilusão, o segundo o despotismo enfadava a razão, o terceiro trago servia para sustentar qualquer condição.

A vida é tão estúpida que estupidez alguma a reconhece quando no lamaçal a morte se finge acordada.

Conceição Bernardino