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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Dom Queixote e o Sancho Prancha

Dom Queixote perdera o juízo na rua do Sobradinho lá prós lados da Vila de Cima, queria ser reconhecido a todo o custo, nem que fosse à lei do estandarte.

Dizia-se senhor das palavras escritas, que Camões colheu, dos feitos do Gama e do Infante, do Bocage, o alucinado herdara o penteado.

Um dia jurou vingança, pediu ajuda ao seu fiel mano Sancho Prancha, um lavrador vindo da parvónia, que confundia nabos com nabiças.

Este aceitou de imediato o pedido do Viriato desde que lhe pagasse umas feriazitas na Ilha dos Gormitis, onde habitam uns monstrinhos com falta de sal na moleirinha.

Fizeram-se à estrada mas ninguém lhes deu boleia, a pobre da Mula já não andava, nem de frente nem de lado, sentia-se cansada, sofria de má circulação e de cólicas renais, tinha passado o dia anterior na feira de Anais. Servia de poiso para regalar uns postais, fotos e caricaturas, era Mula estimada, fidedigna e recatada, sócia número dois da cooperativa das Mulas de Cima.

Dom Queixote iria até ao fim ou não fosse cavaleiro pedante. Subitamente avistou um grupo de idosos acabados de chegar numa excursão da Póvoa de Lanhoso, mas o alucinado era tão ranhoso que disparou uns quantos livros de outros escritores menos lidos, aos quatro ventos da Penha.

- Prancha, Prancha ao ataque olha lá estão eles, os cobardes que me querem roubar a literatura. Como são fortes e barrigudos devem ser castelhanos, atira-lhes com o Neruda ou com o Salvador, que eles piram-se já daqui.

Prancha aparvalhado, respondeu:

- Meu amo repare bem, são um grupo de idosos que visitam a nossa Penha, que mal nos podem fazer?

- Não meu fiel trapaceiro!

Para além de burro és parvo como a pêra rocha, não vês o que os gajos trazem na mão, espadas de vários tamanhos, vamo-nos a eles.

No meio de tanta confusão o pobre alienado e o seu fiel saloio foram parar à cadeia de Santa Cruz do Bispo, Dom Queixote estava deslumbrado com tanta cortesia, lá encontrara amigos de infância. O Pessoa que era carteirista nas praias de Famalicão, Antero que falsificava documentos a pagantes, e o Pessanha mais conhecido por peçonha, porque parecia langonha colado à malvadez.

Prancha fazia contas à vidinha, era melhor dizer amem com o Queixote do que perder o dote, ou não fosse também esfoliado por um louco, que trazia uma maçaroca à cintura e dizia a toda a gente que era o punhal de Romeu, aquele, das omeletas.

Mas como poderia Dom Queixote desistir de tão vil literatura e enfrentar a sua amada e doce amargura, Maria do Alvoroço, que passava a vida a salgar patas de presunto e chispes prà que te quero.

Como iria ele encara-la, e comprovar que não foi ele que escreveu as “Tábuas da Lei”?

Que afinal foi um fulano que tinha a mania que era superior a ele, e que jamais o conseguiria destruir…

Maria do Alvoroço não iria compreender, como consegue um fulano escrever linhas tortas e ser melhor do que ele, e logo ele que sempre escreveu tão certinho e direitinho, era tão perfeito, até parecia faze-lo em cadernos de duas linhas.

Nem pensar tal injúria.

Não tinha outro remédio, Dom Queixote, se não voltar, e contar-lhe a verdade, pobrezito ao assumir que assim era perderia o comando.

Tinha que ser, e lá ganhou coragem o homenzito:

- Maria afinal o comando não é MEO é TEO!

- Eu bem que desconfiava Queixote, ora então quem manda aqui sou EO!

Vai lá salgar umas rimazinhas que eu cá me encarrego de apimentar esta gentalha das (litra) turras.

Vai, vai…

quinta-feira, 22 de abril de 2010

«Puramente quimérica» - Parte I


O teu rosto fedia a “Besta” incompleta puramente quimérica, de olhos rasgados em genitais desejos promíscuos. Queimavas o meu útero de menina nas entranhas da seriedade do teu porte burguês como se bebesses num trago só, toda a minha chaneza.
O meu sangue salivava a tua gargalhada, exibindo o dente de ouro que roubaras de outra virgindade …como pudeste pensar que uma menina como eu te daria tanto prazer se apenas me obrigaste a ser mulher …suicidei a cólera que me possuía e possui-me da polidez.

Não me deixei cair na mesquinhez de lamentações fúteis, os meus olhos negros escondiam uma menina órfã que rapidamente moldava uns belos seios de mulher, desejei-os antes de os entregar à ira da mediocridade dos ladinos. Quis ser a primeira a tocar-lhes; sem pudor despi-me em frente ao espelho, (única peça que adornava o meu quarto), suavemente deslizei os dedos sobre os meus mamilos adornados de seda, endurecidos de deleite pediam-me que me penetrasse, e, num vaivém de uma dança mística amei o meu corpo pela primeira vez, brindei-me com um cocktail de sabores delirantes.

Finalmente tinha-me encontrado com o meu corpo, ergui-o da vegetação, da pena incondicional a que o entregara com nojo de ser mulher. O mundo da “Besta” incompleta que me paralisara tinha fenecido, no momento em que pari a própria vontade de me parir; jurei não rezar mais hóstias bolorentas nem jejuar a fome da impunidade de um cão que se ajoelhava na missa à caça de mais um petiz para o seu cardápio. Voltei pela última vez ao adro da igreja, precisava de olhar-lhe, (no olho que ainda lhe restava), nesse preciso instante tive a certeza que o seu sadismo não coligia rostos.

A igreja continuava intocável, ajoelhei-me aos pés da minha meninice, enquanto um pai-nosso saía a ferros da boca do inferno dos mais devotos, todos comiam o corpo de Cristo, e, bebiam sagazmente os meninos do coro em glória a Deus. O padre bajulava os feitos da caridade do seu rebanho negro, abençoava-os com a carne mais tenra, a mais pura, com que ostentava a sua divindade em benefício do próximo.
A missa terminara; os in(fiéis) cumprimentavam-se, assim mandava a palavra do senhor.

Mathilde Gonzalez - pseudónimo literário de Conceição Bernardino